A memória dos gatos

Como funciona a memória dos gatos? Como eles selecionam o que vão ou não lembrar? E como eles conseguem voltar para casa depois de uma escapadinha?

Gatos realizam associações emocionais, positivas e negativas. Se essas associações são ou não memória (como nós a conhecemos), é apenas uma questão “técnica”. O que se sabe é que eles reagem, sim, a experiências vividas – e isso, em termos práticos, é memória!

Imagem de kai kalhh por Pixabay _ puzzle-1155702_1280

COMO O CÉREBRO DELES FUNCIONA

O cérebro de um gato ocupa menos de 1% de sua massa corporal. Mas o que determinada memória e inteligência é o número de neurônios: são 300 milhões. Capazes de realizar 170 milhões de operações por segundo! Apenas como comparação, os cachorros têm cerca de 160 milhões de neurônios. Portanto, contrariando o que se pensa, a capacidade biológica de um gato reter informações é superior à dos cães.

Estudos científicos comprovaram que o tempo da memória a curto prazo dos gatos é de 16 horas – o que permite lembrar de eventos ou fatos recentes. Esta memória “curta” é principalmente guiada pela visão.

 

TIPOS DE MEMÓRIA: INSTINTIVA E APRENDIDA

A memória dos gatos pode ser dividida em dois tipos:

Instintivas

Que são passadas através das gerações, mesmo antes de o gato ser domesticado.

Aprendidas

São as que são adquiridas pela experiência vivida por cada gato ao longo da vida. Na maioria das vezes, eles “aprendem” por imitação.

MEMÓRIA A LONGO PRAZO

Pesquisas ainda não são conclusivas quanto ao tempo que um gato consegue reter uma informação. Alguns estudos apontam para três anos – embora quem convive com eles sabe que, por seu padrão de comportamento, eles retêm memórias por um tempo bem mais longo… O que já foi comprovado é que gatos lembram de situações boas e ruins – e sabem quais deve e quais não deve repetir.

Também se sabe que eles possuem memória espacial. E que armazenam informações capazes de distinguir pessoas e outros animais com quem convive diariamente. Isso através de sensações (boas ou rins) e experiências (boas ou ruins) vividas ao lado deles.

Uma prova sobre a memória a longo prazo é a relação com o perigo: técnicas de caça aprendidas com os ancestrais são arquivadas e colocadas em prática quando eles se deparam com alguma situação semelhante.

Por exemplo: se algum dia ele teve uma experiência desagradável ou traumática com um cão, basta uma única vez para que, em futuros encontros, ele já “saiba” que cachorros não são muito amigáveis e podem oferecer perigo…

MEMÓRIA SELETIVA E EPISÓDICA

Sabe-se que a memória dos gatos é seletiva e episódica. Eles são capazes de armazenar rotinas, localização (de algo dentro de casa ou da própria casa), experiências negativas e positivas que vivem. Ou seja: é a memória de eventos autobiográficos. Dependendo da intensidade e da relevância de cada acontecimento na vida do gato, ele retém ou não essas informações no córtex cerebral.

MEMÓRIA ESPACIAL

Além de sua memória ser seletiva e episódica, ela também é espacial. Por isso ele guarda (na memória de longo prazo) a localização de cada coisa que é relevante para ele: água, comida, caixa de areia, cama, arranhador, brinquedos…

MEMORIZANDO O CAMINHO DE VOLTA

Esta capacidade de memória espacial explica porque gatos fujões sempre voltam para casa após suas escapadas. Só abrindo um parênteses: evitem ao máximo o acesso de seu gato à rua. Lugar de gato é dentro de casa!

Voltando a este tipo de memória: primeiro temos que entender como funciona o sentido de “território” para um gato: ele não se resume apenas ao seu cantinho na casa ou mesmo a toda a casa. Para eles, segundo pesquisas, “seu território” pode atingir até um raio de oito quilômetros de onde ele vive. Por isso, quando vai para a rua, ele ainda se “sente em casa”.

Pelo instinto da caça, eles têm memória visual e olfativa muito aguçadas. Portanto, são capazes de reconhecer o caminho ao armazenar informações visuais como árvores, edifícios ou uma praça. E pelo cheiro: eles registram odores em sua memória olfativa e, quando necessário (para voltar pra casa, por exemplo), simplesmente “acionam” estes registros tão familiares.

Mas atenção: essa memória olfativa pode ser prejudicada pela direção do vento. E ele vai demorar um pouco mais para encontrar o caminho de volta. Portanto, se ele sair e não voltar, procure-o pela vizinhança. Ele geralmente está por perto e, por algum motivo, não conseguiu voltar. Ou simplesmente não quis.

Importante: se seu gatinho nunca saiu de casa e um dia some, ele não tem esse armazenamento de memória. Vá à luta atrás dele!

De qualquer forma, mesmo que gatos possam ter esta capacidade de, na maioria das vezes, encontrar o caminho de volta para casa, “escapadinhas” devem ser absolutamente proibidas. Não é garantido que eles voltem. E a rua é cheia de perigos para eles (falaremos sobre isso em um post em breve!). Repetimos: lugar de gato é dentro de casa!

Imagem de Free-Photos por Pixabay - cat-691175_1280 - CORTADA

MEMÓRIA E APRENDIZADO

Este memória seletiva é essencial para o processo de aprendizado. Já que ele armazena apenas o que é útil (positiva ou negativamente), ele “aprende” a lidar da forma mais adequada quando se deparar novamente com a mesma situação.

Isso vem de berço: ele aprende com a mãe não apenas as noções básicas (comer, beber água, caminhar, usar a caixa sanitária) mas também a associar sensações positivas ou negativas a determinadas situações.

Por exemplo:

Ele reage a barulhos ou a movimentação por relacioná-los a alguma boa experiência vivida anteriormente. A hora da comida, por exemplo.

Eles também aprendem com a rotina da casa onde vivem, armazenando informações. Se antes de dormir você sempre faz alguma coisa (como pegar um copo d’agua ou ligar a TV do quarto), ele já associa estas ações a: “está na hora de dormir!”. E pula na sua cama até mesmo antes de você!

Por outro lado, experiências negativas também são acionadas quando necessário: quando ele se depara com pessoas ou outros gatos com quem não se dá bem.

Tudo isso faz com que o gato aprenda como se defender de perigos e, principalmente, a identificar seu “pai ou mãe humanos” através da memória positiva (e afetiva) que tem deles.

Portanto, não é verdade a lenda de que gatos não se apegam a pessoas, e sim às casas e à comida. O que ocorre é que ele associa sensações positivas (como comer, ter um teto ou a sensação de segurança) àquela pessoa que proporcionou tudo isso. Ele ama “seu humano” sim!

MEMÓRIA POR TRAUMA

Uma outra forma de reter informações é através de experiências traumáticas, como maus-tratos ou estresse em grau elevado. Eles imediatamente fazem associações negativas (e buscam no “arquivo da memória”) com sons, tom de voz, cheiros ou gestos. O resultado é um gatinho ainda mais ansioso, medroso ou agressivo.

O que fazer com experiências traumáticas retidas na memória

Se um gatinho adotado passou por algum trauma anteriormente, é preciso ir desfazendo esta associação. Se ele tem medo de gente, precisa de um espaço em que se sinta seguro: locais altos ou isolados. Atraia o gatinho até lá com carinho, um petisco ou brinquedos. Construa um relacionamento de confiança e segurança entre vocês até que ele não precise mais se esconder.

Se ele é avesso a toques e carinhos por traumas anteriores, vá devagar. Deixe que ele chegue até você aos poucos, atraindo-o com um petisco ou com uma voz suave. Use uma pena para acaricia-lo se não consegue chegar mais perto. Vá lentamente se aproximando até conseguir tocá-lo sem que ele se retraia.

Descubra o “gatilho” que provocou o trauma: um cabo de vassoura, por exemplo, para gatinhos que apanharam antes de chegar até você. Mantenha o gatilho escondido.

Muitos donos de gatos conseguem reverter um trauma. Mas se isso não for possível, consulte o veterinário. Um especialista em comportamento animal ajuda muito gatinhos traumatizados.

Imagem de Алексей Боярских por Pixabay - cute-3273789_1280

PESQUISA JAPONESA COMPROVA

Um experimento sobre como se dá a memória dos gatos foi conduzido pela psicóloga Saho Takagi, da Univerdidade de Kyoto, no Japão, e publicado na edição de janeiro da revista científica ‘Behavioural Processes’.

A conclusão do estudo foi que os gatos podem “recuperar e utilizar informações codificadas” anteriormente, e a partir de um único evento passado, comprovando a memória episódica em gatos.

Tajagi e sua equipe aplicaram dois experimentos a 49 gatos domésticos e utilizaram como base para a experiência uma tarefa simples e corriqueira: os potes de comida.

Experimento 1

Fase de exposição: os gatos foram colocados diante de quatro tigelas de comida, sendo permitido que eles comam em duas das tigelas.

Fase de teste: os gatos foram retirados do ambiente e trazidos de volta 15 minutos depois e autorizados e explorar as tigelas de comida. Todas as tigelas estavam vazias.

Os cientistas observaram que os gatos exploraram por mais tempo as tigelas em que não haviam comido do que as tigelas onde comeram.

Experimento 2

Fase de exposição: neste, duas tigelas tinham comida, uma continha um objeto não comestível e o outro estava vazio. Os gatos foram autorizados a comer em um deles e depois retirados do ambiente

Fase de teste: ao voltarem, 15 minutos depois, eles foram primeiro às tigelas em que não havia comida, permanecendo mais tempo nelas para, só então, se dirigirem à que tinham comido anteriormente.

Conclusão

Como o comportamento dos gatos nas fases de teste não levou a uma experiência positiva (comer), os resultados sugerem que eles recuperaram e utilizaram informações de “onde comeram” nas fases de exposição, retidas na memória e codificadas em uma única experiência. Como já “lembravam” onde tinham tido a experiência positiva, primeiramente foram explorar as outras tigelas.

“A memória episódica é vista como relacionada à função introspectiva da mente. Nosso estudo indica que existe um tipo de consciência nos gatos. Uma especulação interessante é a de que os felinos devem acionar as memórias da sua experiência, como acontece com os humanos”, disse a pesquisadora em uma matéria da BBC News.

 

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